Matéria da Revista Cabeleireiros.com - Edição 32

ImprimirCosmetologia e toxicologia

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Karin MaiaMergulhe na história dessas duas ciências e conheça as curiosidades que as acompanham

Karin Maia Monteiro (professora de cosmetologia do Curso de Aperfeiçoamento em Cosmetologia e Estética Capilar, da Unicamp)

Cosmetologia é a arte da preservação, do melhoramento ou da restauração da beleza do corpo e do rosto. Trata-se de criar uma aparência cuidada, retardar o aparecimento dos sinais de envelhecimento e compensar ou ocultar os desvios do ideal de beleza com o tratamento cosmético da pele, dos cabelos e das unhas. Toxicologia é o estudo dos efeitos adversos de xenobióticos (tudo que é estranho ao organismo), que podem ser de origem animal, vegetal, mineral ou sintética. Os cosméticos representam xenobióticos que podem causar efeitos indesejáveis. Mas o que essas duas ciências têm em comum?

O homem pré-histórico classificava animais e plantas como seguros e nocivos. A humanidade descobriu muito cedo em sua busca por alimentos que vários vegetais fazem mal ao organismo. Essa propriedade foi explorada ao se extraírem venenos de animais e plantas e usá-los para caçar e guerrear. Ao mesmo tempo que o homem das cavernas utilizava corantes naturais para tatuagens, ele explorava o veneno de animais e toxinas de plantas para caçar.

A civilização egípcia ostentava grande conhecimento em pinturas para os olhos e para a face, e em óleos para o corpo e unguentos. Homens e mulheres usavam maquiagem, que não cumpria apenas funções estéticas, mas higiênicas. As pinturas para os olhos eram de cor verde (malaquita) e negra. Óleos e cremes eram aplicados no cabelo e na pele como forma de hidratação num clima seco e quente. Alguns egípcios raspavam completamente o cabelo (para evitar piolhos) e usavam perucas. Nessa cultura a beleza física, tanto de homens como de mulheres, era realçada com o uso de pinturas à base de hena, sobretudo em torno dos olhos e nas unhas.

A maquiagem era empregada em cadáveres, pois se acreditava que, ao ressuscitarem, precisariam estar belos. Todavia, os restos mortais encontrados em tumbas revelam que a maioria dos materiais usados eram brutos, como sulfeto de chumbo e carvão, e, provavelmente, causavam irritação ocular. Pinturas marrom-avermelhadas para a face continham grande quantidade de ferro. Diz-se que o batom de Cleópatra era feito de besouros vermelhos finamente triturados, que resultavam em um pigmento vermelho-intenso, que era misturado com ovos de formiga. Certamente, os efeitos tóxicos dessas misturas foram sentidos “na pele”.

Ainda na história da cosmetologia, encontramos a rainha Elizabeth I, que viveu na Inglaterra de 1500. Muitas fragrâncias italianas e francesas eram importadas por ela. Os tratamentos de beleza daquela época também ofereciam riscos: as mulheres aplicavam chumbo branco e mercúrio para obter uma pele pálida. Esses metais eram absorvidos e ocasionavam mortes.

O chumbo era misturado ao vinagre para formar uma pasta denominada “cerusa”. Esse metal causava queda de cabelo e explicava a “moda” de testas extensas. O óleo à base de ácido sulfúrico (corrosivo), misturado ao extrato de ruibarbo, era usado como tônico e clareador capilar. Obviamente, também causava queda de cabelo. Batons eram feitos com uma mistura de cochonilha (pequeno inseto) e cera de abelha. Sombras brilhosas eram feitas a partir de pó de pérolas. Vinho tinto, leite de burra, água de chuva e até mesmo urina eram usados como clareadores faciais.

As sardas eram indesejáveis, e um dos remédios para removê-las era a infusão de folhas de sabugueiro com seiva de vidoeiro e enxofre. Tal mistura era aplicada à pele ao luar e removida pela manhã com manteiga fresca. Claras de ovos batidas eram utilizadas como firmadoras da pele. Para combater os efeitos nocivos das pastas de chumbo, máscaras faciais eram feitas à base de raízes de aspargos e leite de cabra e aplicadas com pão morno.

Os cabelos eram lavados a seco com argila em pó. Eram, então, escovados, para que a oleosidade e a sujeira fossem absorvidas. Os penteados exóticos estavam na moda, e um gel capilar era feito à base de dejetos de andorinhas e sebo de lagartixa.

Tomar banho não era um hábito, pois se acreditava que enfraqueciam o organismo. Era necessário usar perfumes para encobrir os odores. Todos os sabões eram perfumados com essência de lavanda. Na época da Revolução Francesa, as perucas e os cosméticos estavam na moda entre homens e mulheres. Era muito comum manter o cabelo curto e sujo por baixo da peruca, embora o xampu já tivesse sido inventado. As perucas eram feitas de lã e gordura animal e eram altamente inflamáveis.

Os benefícios estão sempre atrelados aos riscos. Passados 400 anos, a humanidade continua buscando recursos para se embelezar. A essa busca, agregamos a necessidade de determinar a segurança daquilo que nos torna mais belos.
 

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