Matéria da Revista Cabeleireiros.com - Edição 11

ImprimirMudanças que geram saudades

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Osvaldo Alcântara relembra fatos marcantes que dificultavam o exercício da profissão de cabeleireiro, desde o seu início. Os tempos mudaram, mas a saudade é a mesma, assim como valores e atitudes que jamais serão ultrapassados: dignidade e profissionalismo.

Como era difícil nossa profissão no início! Lembro-me que antes de ingressar no segmento trabalhava num Banco. Era menor de idade, com um temperamento explosivo, briguento e criador de problemas. Houve uma greve no Banco, a qual eu não apoiava. No entanto, para apoiar os colegas, aderi ao movimento e me tornei o líder da greve. Acabei sendo demitido. Foi a maior sorte da minha vida, pois desde que comecei na profissão, em 1950, só tive alegrias, felicidade e fiz muitas amizades. Consegui me realizar profissionalmente, com esta mudança, trabalhando entre os cabeleireiros.

O primeiro salão que entrei, era o máximo da profissão. O Antoine Cabeleireiro ficava na Praça da República e o proprietário era um homem com mais de dois metros de altura e uma cara de zangado. Olhei pela porta e não tive coragem de entrar. Desci, tomei um conhaque no bar, e voltei. Apresentei-me como vendedor da Niasi e fui muito sincero quando começamos a conversar. Revelei que nunca havia bebido na minha vida e que, como havia tomado um conhaque, não devia estar bom da cabeça. Este homem gostou tanto de mim, que comprou todo meu estoque. Atingi a cota do mês, em um dia, como vendedor da Niasi.

Naquela época os salões de beleza eram totalmente fechados com cortinas, sem poder misturar homens e mulheres. Só entrava naqueles espaços o profissional cabeleireiro e a cliente. O cabeleireiro saía, preparava a mistura de tinta, retornava e aplicava no cabelo da cliente com um ajudante, de muita confiança. Principalmente, porque a cliente não assumia que costumava colorir o cabelo. O detalhe era que cada cliente possuía uma gavetinha no armário com todos os seus pertences: alicate, tesoura, grampo, pente, escova etc. Deus me livre se uma cliente usasse um material da outra!

Por estas e outras, era muito difícil ser cabeleireiro ou barbeiro. A começar pela prova para poder cursar a escola de cabeleireiros. O primeiro passo era ir até ao Sindicato dos Cabeleireiros, que ficava na Rua Quintino Bocaiúva, para realizar a prova. O candidato deveria encher uma bexiga, totalmente. Depois, amarrá-la em uma cadeira, passar espuma, e com o fio da navalha retirar a espuma, como se estivesse fazendo uma barba, sem estourar a bexiga. Isto para começar a freqüentar a escola!

E as permanentes? Eram feitas com máquina balão, cujos fios que dela saíam eram colocados na cabeça das clientes. Havia um feltro onde se passava as mechas dos cabelos por dentro do fecho, colocava-se o cabelo dentro das borrachas e fechavam-se os grampos. Depois da máquina balão, a Wella lançou uma máquina com bigudinho e catraca. A cliente sentia um pouquinho de dor, mas depois de duas horas na máquina, gostava do resultado. Detalhe: saía até fumaça da máquina.

Em seguida, nossas condições de trabalho foram melhorando. Foi quando surgiu a primeira permanente de sais. Em seguida apareceu outra, com óleo sachê, que misturava óleo para prender o cabelo. O calor era tão rápido e intenso que os cabeleireiros viviam com esparadrapos nos dedos. Tudo para quebrar a cutícula do cabelo. Desta forma, podemos concluir que todo modernismo de hoje veio do passado.

Como sou desta época, que considero fantástica, acho muito desagradável o salão unissex, onde as mulheres e homens se misturam. Também não aprovo salões com janelões, portas de vidros, onde podemos visualizar a cliente com tintura ou carregadas de bóbis, que é uma visão muito desagradável. Além de ser um desrespeito com a cliente. Por isto, sinto uma grande saudade do passado. Saudade que aperta, principalmente pela maneira como se tratava os clientes.

Amigo cabeleireiro, preste atenção! Os tempos mudaram, mas os clientes continuam gostando de serem bem atendidos e de receberem um tratamento exclusivo. A nossa profissão, naquela época, infelizmente, era pouco reconhecida. Tínhamos valor junto à clientela, mas não perante a sociedade. Hoje, somos benquistos na sociedade, porém alguns profissionais ao invés de trabalharem com orgulho e criatividade, pensam apenas em ganhar dinheiro. Então, atenção! Não adianta ter preço e sim qualidade, para exercer com profissionalismo e dignidade a nossa profissão.

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