Matéria da Revista Cabeleireiros.com - Edição 19

ImprimirO papel da técnica na construção da imagem pessoal

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A técnica é indispensável ao desempenho de qualquer profissional, embora não seja um diferencial e sim, uma constante. Só através do conhecimento da linguagem visual o estilista poderá criar imagens e definir estilos.

Há alguns anos, fui convidado a ministrar um workshop para os alunos de design de uma faculdade. Pensavam que era preciso mais técnica para estimular a sua criatividade, mas logo percebi que o que lhes faltava era conhecimento da linguagem visual e não técnica. Conheciam pouco, ou nada, de composição, a dinâmica das linhas, proporção áurea, estética, luz ou cor. Conseqüentemente, não sabiam como as imagens funcionam e como se expressar visualmente. Isso não é um problema técnico.

Em todas as áreas de artes visuais, inclusive na de imagem pessoal, há uma tendência de focar em técnica e ignorar o estudo da linguagem visual. Aliás, muitas pessoas nem sabem o que é linguagem visual.

A técnica é essencial ao processo criativo. Sem ela, não há como executar um trabalho, e quanto mais domínio e experiência com diversas técnicas, maiores recursos o criador da imagem terá. Na construção da imagem pessoal, o aprendizado de técnicas habilita o profissional a criar diversos efeitos no corte, na coloração, no penteado, no design de sobrancelhas e na maquilagem. Com conhecimento técnico, sabe em que ângulo cortar uma mecha para obter o efeito desejado, ou com que instrumento deve trabalhar. Sabe como aplicar uma tintura corretamente e como usar escovas. O maquilador sabe como aplicar os cosméticos, para criar efeitos diversos, e como utilizar uma pinça, por exemplo. No entanto, mesmo sabendo fazer tudo isso, o profissional não saberá estilizar um corte, definir uma intenção ou expressar-se através da cor e da luz, se não adquirir outros conhecimentos. O fazer e o idealizar são fases distintas e separadas do processo criativo.

O processo criativo tem quatro estágios interligados: a concepção, a materialização, a interpretação e a reinterpretação. Eu não sou cabeleireiro e nem maquilador. Sou artista plástico e pesquisador da linguagem visual há quase 40 anos. Embora não possa executar um corte de cabelo ou uma maquilagem, porque não domino as técnicas, consigo estabelecer um conceito de corte e materializá-lo visualmente, desenhando o conceito. Mas também poderia materializá-lo verbalmente, simplesmente explicando o que visualizo mentalmente. Em outras palavras, consigo criar um estilo, mas não sei executá-lo, ou interpretá-lo.

Na fase da idealização, que compreende a concepção e a materialização, estabelece-se o que se deseja expressar através da imagem. Na fase do fazer, a interpretação, decide-se como isso será realizado. Em algumas artes, como na música, duas ou mais pessoas estão envolvidas no processo de criação. O compositor idealiza a música; o intérprete a executa.

A última fase, a reinterpretação, envolve o espectador, ou, no caso da imagem pessoal, o cliente e as pessoas com quem tem contato, que reinterpreta aquilo que o artista criou.

O aprendizado da linguagem visual habilita o profissional a criar uma imagem conscientemente. Ele aprende o que as formas, linhas e cores expressam, os princípios de harmonia, estética e equilíbrio, a teoria da cor, como a luz funciona e como utilizá-la para criar volume. Essa linguagem não é baseada em regras ou em preferências culturais, mas na física ótica, na matemática, na geometria e na ciência cognitiva, que estuda como o ser humano processa imagens no cérebro e como funciona a percepção visual. Com esse conhecimento, uma pessoa pode criar uma imagem que expressa um conceito, ou idéia. Isso é a mesma coisa que criar um estilo.

Infelizmente, a maioria das pessoas que lida com imagens não tem esse conhecimento formal. Isso acontece porque raramente é ensinado nas escolas e faculdades. Antigamente era ensinado por meio do desenho, academicamente. As academias estabeleceram regras no uso da linguagem visual, limitando a criatividade, e as escolas modernas não souberam separar o conhecimento das regras, abandonando o ensino do desenho por completo, desde 1960.

Como resultado, a maioria dos profissionais usa somente a intuição, que depende do grau de inteligência visual, ou copia estilos pré-determinados por outros e assimilados por fotografias, ou pela observação de outros trabalhando. Além de limitar o profissional, isso causa frustração e um senso de impotência. Mesmo um profissional com alto grau de inteligência visual se beneficiará adquirindo o conhecimento formal da linguagem visual.

Além de proporcionar muito mais opções e liberdade para criar, esse aprendizado faz com que o trabalho se torne consciente. O profissional saberá explicar o conceito do corte para o cliente, o que expressará e como o afetará. Também permitirá analisar a imagem que o cliente tem ao entrar no salão, o que expressa e o que não é adequado esteticamente, para sua personalidade e para suas atividades.

O profissional que conhece muitas técnicas, mas nunca estudou a linguagem visual é limitado. Para exercer sua criatividade plenamente, ele precisa ter o domínio da linguagem visual e de diversas técnicas, e saber usá-las em conjunto. Isso exige treino, prática e estudo.

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